
Porque estamos no melhor momento para o CVC
O recente anúncio do Banco do Brasil de ampliar para R$ 500 milhões os recursos destinados a startups, somado aos movimentos de Itaú e Petrobras, sinaliza algo importante: mesmo em um contexto de escassez de capital de venture capital tradicional, as grandes corporações brasileiras estão enxergando uma janela estratégica rara. Com menos fundos disputando os melhores ativos e valuations mais racionais, conforme detalhei em meu artigo para a EXAME “Vale a pena investir em startups com a Selic a 15%?”, assim este é um momento especialmente favorável para incumbentes investirem em startups – desde que o façam com disciplina e profissionalismo, e não apenas por modismo.
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Quando o capital de VC aperta, o jogo muda. Startups passam a valorizar mais parceiros que, além de dinheiro, tragam acesso a mercado, infraestrutura, dados, marca e capacidade de escala. Isso coloca as corporações em posição privilegiada: elas podem estruturar programas de Corporate Venture Capital (CVC) que não só busquem retorno financeiro direto, mas também gerem vantagens competitivas concretas – novas receitas, aumento de eficiência, redução de riscos, aprendizado tecnológico e defesa contra potenciais disruptores.
Como apresento no meu livro “Corporate Venture Capital” compartilhando minha experiência em CVC nos últimos 12 anos apresentando cases como Bradesco, Cyrela, Positivo, para aproveitar essa oportunidade são necessários alguns cuidados fundamentais. O primeiro deles é a governança e a senioridade na gestão. Investimentos em startups não podem ser delegados a times sem experiência específica ou a estruturas que não tenham, na prática, profissionais seniors com larga experiência no setor e, idealmente, pelo menos 10 anos investindo em startups. Mesmo na terceirização da gestão, é crítico garantir que quem faz a gestão integral dos investimentos sejam sócios sêniores, com histórico real de acertos e erros nesse tipo de ativo, e que sua remuneração variável esteja alinhada tanto a resultados financeiros quanto a objetivos estratégicos da empresa-mãe. Assim, olhar apenas para a “melhor” proposta comercial, ou seja, com a menor taxa de administração é receita para no dia seguinte a gestão ser operada por times sem vivência necessária para sucesso.
O segundo cuidado é preparar a corporação para gerar sinergias reais com as startups investidas. Sem um trabalho prévio de alinhamento com áreas de negócio, jurídico, compras, tecnologia e inovação, o CVC corre o risco de virar apenas um “fundinho financeiro” paralelo, desconectado da operação. Para que o investimento produza resultados estratégicos, é preciso desenhar teses claras de onde as startups podem agregar valor, criar trilhas estruturadas de pilotos e parcerias, ter sponsors internos para cada tese e ajustar processos internos para que a empresa consiga testar, aprender e escalar soluções em ritmo compatível com o mundo das startups. Isto também exige investimentos prévios em adaptação de processos, capacitação, treinamento e alinhamento de metas internas.
O terceiro pilar é o papel do conselho de administração e do CEO. Sem conhecimento profundo sobre como funciona o investimento em startups – prazos, taxas de mortalidade, dinâmica de portfólio, diferença entre VC financeiro e CVC estratégico –, o board tende a oscilar entre euforia e frustração: aprova programas ambiciosos em momentos de entusiasmo e corta iniciativas justamente quando os primeiros aprendizados começam a aparecer. Conselheiros precisam entender que CVC é uma ferramenta de inovação e de estratégia corporativa, não apenas uma aposta financeira, e que sua função é dar diretrizes claras sobre tese, apetite de risco, horizonte de tempo e métricas de sucesso.
Descubra os 100 Termos Essenciais para Navegar no CVC
O universo do Corporate Venture Capital (CVC) é vasto e dinâmico, abrangendo uma gama diversificada de termos e conceitos que são cruciais para entender e navegar nesse campo.
Para CEOs e conselheiros de incumbentes, a mensagem central é simples: a conjuntura atual – com escassez relativa de capital, valuations mais atraentes e fundadores mais pragmáticos – favorece corporações que queiram construir um portfólio de opções sobre o futuro. Mas isso só será uma vantagem competitiva se o CVC for tratado como disciplina estratégica de longo prazo, com governança sênior, preparação interna para sinergias e um conselho capaz de sustentar a agenda mesmo além dos ciclos de hype. Quem conseguir combinar capital paciente com execução profissional tende a sair deste ciclo estruturalmente mais forte do que os concorrentes, tanto no balanço quanto no posicionamento de mercado.
A falta destes cuidados pode levar a grandes fracassos, como comentei em meu outro artigo para a EXAME: “Por que 90% dos Corporate Ventures vão fracassar”. Assim, ao pensar em estruturar um CVC, não basta apenas definir qual montante será investido nas startups, mas tão ou mais importante quanto se irá alocar para se preparar e ter profissionais dedicados com larga experiência em investimentos em startups e relacionamento com corporações.
Se quiser conhecer mais sobre lições de sucesso e fracasso em CVC, será um prazer marcarmos uma conversa.
Sobre o autor
Lead Partner da Alya Ventures, fundador e presidente da Anjos do Brasil e autor do livro “Corporate Venture Capital”



