
O fim do MVP? O novo playbook da inovação corporativa em tempos de IA
Março costuma ser um mês especial para as pessoas que trabalham com inovação corporativa, pois acontece o SXSW e a esperada palestra da Amy Webb. Já li o relatório sem grandes choques, mas foi legal o reconhecimento que tendência é "coisa do passado", o que interessa são as convergências, como muitas pessoas já publicaram o que por aqui.
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Mas o que me deixou chocado nesta semana foi a newsletter do Steve Blank, onde ele faz um ensaio do novo formato de inovação para as startups.
Segundo o professor, MVP, Lean Startups e afins já não são mais adequados aos nossos tempos. Minha pergunta é: agora que aprendemos Lean Startup, Agile e Design Thinking, vai começar tudo de novo? Escrevo sobre isso hoje.
Sempre tive um pé na prática e um dedo na academia. Fui aprendendo a fazer inovação corporativa na tentativa e erro, enquanto ia lendo os principais conceitos nos livros e nos artigos. O que mudou muito para mim foi a partir de 2016, quando comecei a conhecer pessoalmente a maioria dos autores e - pasmem - eles falaram as mesmas coisas dos livros, mas desta vez pareciam fazer um sentido mais profundo. Vou seguir com os autores que me balizaram para construir finalmente os processos vencedores, tanto em inovação corporativa como em CVC.
Joseph Schumpeter († 1950). Primeiro grande estudioso da inovação na economia, trouxe principalmente o conceito de Destruição Criativa, segundo o qual a economia é baseada em novos produtos e empresas que destroem o mercado anterior em ciclos contínuos, como a lâmpada que destruiu a luz de vela.
Joe Tidd.Escreveu uma série de livros, sempre evoluindo com a inovação. Mas seu livro que mais me impactou foi Gestão da Inovação. Um livro de cabeceira que não fica defasado. Traz os princípios de inovação, gestão de portfolio, parcerias e alianças.
Clayton Christensen († 2020). Como base no conceito de Destruição Criativa, aprofundou e entendeu a Inovação Disruptiva. Resumindo, é um tipo de inovação que começa em nichos não atendidos pelos players tradicionais e com o tempo, acabam conquistando todo o mercado e substituindo a cadeia de valor anterior, como a foto digital x Kodak e o Streaming x Locadoras. Também o trouxe o Dilema da Inovação para as empresas: executar perfeitamente o trabalho do core não garante o futuro, mas traz resultados imediatos, ou investir no futuro que no começo não resultados aparentes. Problema: quase ninguém consegue entender os conceitos, quanto menos aplicá-los. A solução proposta é a organização ambidestra, com autonomia, para conseguir trabalhar o futuro com métricas específicas e pessoas qualificadas.
Gina O'Connor Em seu livro "Beyond the Champions", conseguiu demostrar porque as áreas de inovação corporativa abrem e fecham a todo momento, contratando e demitindo pessoas. Dentre os principais problemas, o trabalho ser "formiguinha"ou por Champions, a necessidade de quebra de regras, o ciúme de outras áreas, ambiguidade no papel da área, uso indiscriminado de ferramentas (Bala de Prata) e métricas de bônus de H1. A solução proposta também é a organização ambidestra, como uma área ou uma empresa que tenha pessoas com perfil de empreendedores para realizar Discovery, Incubation e Acceleration.
Manifesto Ágil. Escrito em 2001, é baseado em trocar processos, organizações e planos estruturados, por pessoas, interface com cliente e software funcionando. O Ágil espalhou-se para o mundo todo, mas trouxe um problema. Para software, foi um alívio, mas as empresas começaram a usar Ágil em tudo (Bala de Prata). Mesmo assim, o conceito vale para software.
Tim Brown. Criou a filosofia do Design Thinking, como prefiro chamar. É baseada nos princípios cíclicos de descoberta da necessidade emocional dos clientes, prototipação barata e rápida, interações com clientes. Gira o ciclo até chegar a um conceito/design satisfatório para os clientes. Assim como MVP, tornou-se bala de prata e em muitos casos, a descoberta acaba sendo feita com post its dentro de sala.
Edição anual 2025 do relatório Ecossistema de Inovação Aberta e CVC no Brasil
Já está no ar a edição anual 2025 do relatório Ecossistema de Inovação Aberta e CVC no Brasil, produzido pela Sling Hub e com apoio da ABCVC. O consolidado de 2025 registra US$ 4,5B investidos em startups brasileiras, em 459 rodadas. Dentro desse total, rodadas com participação corporativa somaram US$ 2,06B (46%), concentradas em 48 rodadas (10%) — sinal de alocação corporativa em menos operações e de maior ticket. Na comparação com 2024, a retração foi mais forte na atividade do que no volume: -22% em rodadas e -13% em volume, com 367 investidores em 2025.
Eric Ries Pupilo de Steve Blank, trouxe o conceito de Lean Startup, a partir da observação de como as startups desenvolviam seus produtos na década de 2.000. Em resumo, parte do princípio de ciclos rápidos com a definição de uma ideia, construção rápida de um MVP e seu teste rápido, para então realimentar o sistema com novas ideias seguindo novamente o ciclo. Aqui também um problema, o uso de MVP somente internamente sem colocá-lo na venda prática com o cliente. MVP também virou bala de prata.
Henry Chesbrough. É pai do conceito de Inovação Aberta. Basicamente compreende em diferentes formas de parcerias e alianças (P&D, CVC, M&A, Licenciamento etc.) que complementem a capacidade da empresa, seja em termos técnicos ou temporais. Noto que no Brasil chamamos de Inovação Aberta a contratação de serviços de startups através de desafios abertos. Vamos ter que encontrar outro nome para tropicalizar o que o Henry trouxe.
Steve Blank - Fase 1. Steve trouxe o conceito de Customer Development. Ou seja, em inovações H2/H3, o desenvolvimento precisa feito junto com os clientes, fora do escritório e sem post its. Também reconceituou os horizontes de inovação. H1 passa a ser Conhecido, H2 Parcialmente Conhecido e H3 Desconhecido, independentemente do tempo que cada inovação leva para ir ao mercado. E com isso, deixou claros os caminhos: H1 - processo e organização usuais, H2/H3 processos e organizações dedicadas que rodam o Customer Development e o Lean Startup.
Steve Blank hoje. Com mudança que a IA está trazendo os mercados, publicou no dia 17/03 um artigo onde defende que as startups que não aprenderem a olhar ao redor quebrarão em 2 anos, pois baseiam em um playbook defasado e mal praticado (em especial porque o pessoal parou de sair do prédio para encontrar os clientes). O que muda: o Ágil dá lugar ao desenvolvimento paralelo (de volta), Product/Market Fit troca por AI Agent/Customer Outcome Fit, MVP troca por MPO (Resultado Mínimo Produtivo) e prática de Sunk Costs (Too Big to Fail) não poder mais utilizada. Isto traz a agilidade necessária para que as startups consigam seguir o ritmo da IA e o nível de velocidade que os clientes estão demandando.
Conclusões para aplicação em corporações
Resumo na tabela abaixo o que entendo que podem ser implicações para cada conceito / ferramenta.
Concluindo, o centro da mudança do playbook é a velocidade. Todo o playbook precisar remodelado para tempos de clientes velozes e inteligência artificial.
Este texto foi escrito 100% por um ser humano (eu). Apesar da revisão minuciosa, erros podem ter passados despercebidos.
Sobre o autor
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