
IA não é a próxima tecnologia. É a próxima infraestrutura
Essa visão não é apenas especulação. Um relatório recente da Sequoia Capital, apresentado no evento AI Ascent 2025, argumenta que a inteligência artificial pode representar uma oportunidade econômica ainda maior do que a transição para cloud computing. Isso porque a IA não está atacando apenas o mercado de software, ela também começa a substituir partes do mercado de serviços e trabalho humano, ampliando enormemente o tamanho da oportunidade.
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Nos últimos trinta anos, a tecnologia evoluiu em ondas bastante claras. Primeiro veio a internet, que conectou o mundo. Depois o mobile, que colocou essa conexão no bolso de bilhões de pessoas. Em seguida, o cloud computing, que transformou software em serviço e permitiu que startups nascessem globais desde o primeiro dia.
Agora estamos entrando em uma nova fase, e ela é mais profunda do que todas as anteriores.
A inteligência artificial não está apenas criando novos produtos. Ela está mudando a própria lógica de como o trabalho acontece.
A maioria das pessoas ainda olha para a IA como uma ferramenta: algo que ajuda a escrever textos, gerar imagens ou responder perguntas. Mas essa visão é pequena demais. O que está surgindo agora não são apenas assistentes inteligentes. São agentes capazes de executar trabalho.
Essa diferença é fundamental.
Durante décadas, softwares foram desenhados para serem usados por humanos. Você abre um sistema, preenche campos, executa comandos e toma decisões. A nova geração de IA inverte essa lógica: você define o objetivo, e o sistema descobre como chegar lá.
Isso significa que estamos começando a ver o nascimento de algo novo dentro das empresas: trabalhadores digitais.
Um agente de IA pode pesquisar fornecedores, preparar propostas comerciais, analisar contratos, responder clientes ou monitorar indicadores financeiros. Em vez de executar uma tarefa isolada, ele executa processos inteiros.
Quando vários desses agentes passam a interagir entre si, surge algo ainda mais interessante: uma espécie de economia digital paralela, onde softwares tomam decisões, trocam informações e executam operações com mínima intervenção humana.
Esse cenário parece futurista, mas já começou.
E ele tem implicações enormes.
A primeira delas é produtividade. Historicamente, o crescimento econômico sempre esteve ligado à capacidade de produzir mais com menos recursos. A IA amplifica isso de forma significativa. Um profissional bem equipado com sistemas inteligentes pode realizar o trabalho que antes exigia equipes inteiras.
Isso não significa necessariamente menos empregos. Significa algo que já vimos em outras revoluções tecnológicas: novos tipos de trabalho surgindo e antigas funções sendo redefinidas.
A segunda implicação é empresarial.
As grandes empresas da era da nuvem não surgiram na infraestrutura. Elas surgiram nas aplicações: Salesforce, Shopify, Stripe, Snowflake. A mesma lógica deve se repetir com a inteligência artificial. Embora muita atenção esteja voltada para os modelos e para a corrida por GPUs, o verdadeiro valor provavelmente será capturado por quem construir soluções específicas para problemas reais.
Em outras palavras, quem entender profundamente o problema do cliente terá vantagem sobre quem apenas domina a tecnologia.
Isso leva a um ponto talvez subestimado: dados e contexto.
Modelos de IA são poderosos, mas genéricos. O que realmente diferencia aplicações úteis é o acesso a dados proprietários, integração com sistemas existentes e compreensão do contexto de negócio. Segundo a própria análise da Sequoia, a maior parte do valor econômico dessa nova onda tende a se concentrar na camada de aplicações, especialmente em soluções verticais e específicas para determinados setores.
Mas há um detalhe importante: confiar cegamente em sistemas de IA ainda é arriscado.
Edição anual 2025 do relatório Ecossistema de Inovação Aberta e CVC no Brasil
Já está no ar a edição anual 2025 do relatório Ecossistema de Inovação Aberta e CVC no Brasil, produzido pela Sling Hub e com apoio da ABCVC. O consolidado de 2025 registra US$ 4,5B investidos em startups brasileiras, em 459 rodadas. Dentro desse total, rodadas com participação corporativa somaram US$ 2,06B (46%), concentradas em 48 rodadas (10%) — sinal de alocação corporativa em menos operações e de maior ticket. Na comparação com 2024, a retração foi mais forte na atividade do que no volume: -22% em rodadas e -13% em volume, com 367 investidores em 2025.
Modelos podem errar, interpretar contextos de forma equivocada ou produzir respostas inconsistentes. Quando esses sistemas passam a executar tarefas críticas, financeiras, jurídicas ou operacionais, a margem para erro diminui drasticamente. Por isso, uma das competências mais importantes da próxima década será governança de IA: saber onde automatizar, onde supervisionar e como estruturar processos híbridos entre humanos e máquinas.
Esse talvez seja o verdadeiro desafio cultural.
Durante muito tempo, organizações foram estruturadas para maximizar controle humano. Com a inteligência artificial, o papel das pessoas começa a migrar da execução para a supervisão. Em vez de fazer cada tarefa manualmente, profissionais passam a orquestrar sistemas que executam o trabalho.
É uma mudança de mentalidade semelhante à que ocorreu quando a automação industrial chegou às fábricas.
E, como toda mudança estrutural, ela acontece de forma desigual.
Algumas empresas estão apenas experimentando prompts em ferramentas de IA generativa. Outras já estão redesenhando processos inteiros com agentes autônomos. A distância entre esses dois grupos tende a aumentar rapidamente.
Isso porque a inteligência artificial não é apenas uma tecnologia incremental. Ela é uma infraestrutura cognitiva. Uma camada que permite que softwares passem a raciocinar, interpretar e agir.
Quando isso acontece, o impacto não é apenas em produtos. É em modelos de negócio.
Empresas podem operar com estruturas muito mais enxutas. Processos podem ser executados em tempo real. Decisões podem ser tomadas com base em análise contínua de dados.
A consequência inevitável é que a próxima geração de empresas provavelmente será menor em pessoas e maior em impacto.
Se olharmos para trás, os primeiros anos da internet também pareciam confusos. Havia experimentação, exagero, promessas infladas e muitos projetos que não deram certo. Mas no meio desse ruído nasceram empresas que redefiniram setores inteiros.
A inteligência artificial parece estar exatamente nesse ponto.
A infraestrutura está sendo construída. O capital está sendo investido. As ferramentas estão amadurecendo. O que ainda não apareceu — pelo menos não de forma clara, são as empresas que vão dominar essa nova camada da economia.
Mas uma coisa parece evidente: elas não serão apenas empresas de software.
Serão empresas que aprenderam a trabalhar com inteligências digitais.
E isso muda tudo.
AI's Trillion-Dollar Opportunity: Sequoia AI Ascent 2025 Keynote: https://www.youtube.com/watch?v=v9JBMnxuPX8&list=PLOhHNjZItNnMEqGLRWkKjaMcdSJptkR08
Sobre o autor
Leo Monte é Presidente da ABCVC


