
Focar nas perdas iniciais do CVC é perder o ponto principal
Um estudo recente da Spectra Investments gerou grande repercussão no ecossistema brasileiro de inovação corporativa. O levantamento indicou que 72% dos fundos de venture corporativo no Brasil apresentam atualmente taxa interna de retorno negativa, com média de -10%.
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Publicado originalmente em:
Diante desses números, alguns observadores rapidamente concluem que o modelo de investimento corporativo em startups estaria falhando. A defesa mais comum do setor costuma ser: “os fundos corporativos não buscam apenas retorno financeiro; também capturam valor estratégico.”
Essa afirmação é verdadeira, mas já se tornou um argumento repetido. É amplamente reconhecido que fundos corporativos buscam inteligência de mercado e sinergias tecnológicas. Os próprios dados do estudo mostram que 34% das saídas mapeadas ocorreram por aquisição realizada pela própria empresa controladora do fundo.
Ainda assim, apoiar-se exclusivamente na ideia de “valor estratégico” para justificar retornos negativos é um erro. Isso acaba desviando a atenção de um problema mais profundo: a forma como esses fundos estão sendo analisados. O desafio central é avaliar veículos de investimento em inovação sem considerar a dinâmica própria dessa classe de ativos. Três fatores fundamentais costumam ficar de fora dessa discussão.
O efeito da curva em J
A geração atual de fundos de venture corporativo no Brasil é jovem demais para ser avaliada apenas pela taxa interna de retorno. O país viveu um ciclo intenso de criação desses veículos entre 2021 e 2022, o que significa que a maioria deles ainda está longe de completar um ciclo típico de investimento. No estudo mencionado, 30% dos fundos analisados têm menos de três anos de existência.
Em investimentos em startups, os retornos iniciais quase sempre são negativos — fenômeno conhecido como curva em J. As taxas de administração pressionam os resultados no início, e investimentos malsucedidos costumam ser reconhecidos rapidamente como perdas. Já as empresas que dão certo precisam de cinco a dez anos para amadurecer e gerar liquidez.
Avaliar a taxa de retorno de um fundo desse tipo no terceiro ano é como tentar decidir o resultado de um jogo de basquete no primeiro quarto. Não é possível medir um investimento pensado para dez anos com uma régua de três.
A concentração extrema dos retornos
Investimentos em startups seguem uma distribuição extremamente desigual de resultados. Um grande número de perdas faz parte da lógica desse mercado. Dados mais amplos sobre a indústria de capital de risco e private equity indicam que investimentos em tecnologia apresentam taxa de perda total próxima de 40%.
Por outro lado, cerca de 15% dos investimentos — aqueles que retornam mais de cinco vezes o capital aplicado — geram aproximadamente 85% do retorno total.
Isso significa que muitos fundos tradicionais de capital de risco também exibem taxas de retorno negativas durante boa parte de sua vida. Exigir dos fundos corporativos um padrão diferente e criticá-los por apresentar a mesma distribuição de resultados observada no restante do mercado ignora como funciona o investimento em inovação.
Parte relevante do valor aparece fora do fundo
Edição anual 2025 do relatório Ecossistema de Inovação Aberta e CVC no Brasil
Já está no ar a edição anual 2025 do relatório Ecossistema de Inovação Aberta e CVC no Brasil, produzido pela Sling Hub e com apoio da ABCVC. O consolidado de 2025 registra US$ 4,5B investidos em startups brasileiras, em 459 rodadas. Dentro desse total, rodadas com participação corporativa somaram US$ 2,06B (46%), concentradas em 48 rodadas (10%) — sinal de alocação corporativa em menos operações e de maior ticket. Na comparação com 2024, a retração foi mais forte na atividade do que no volume: -22% em rodadas e -13% em volume, com 367 investidores em 2025.
Fundos corporativos operam com um mandato duplo. Pesquisa global sobre venture corporativo realizada pela Global Corporate Venturing em 2025 confirma que, embora o retorno financeiro seja relevante, objetivos estratégicos — como preparar a empresa para futuras transformações tecnológicas ou fortalecer o negócio principal — são igualmente importantes.
Fundos independentes buscam maximizar o retorno financeiro do próprio fundo. Já os fundos corporativos frequentemente funcionam como um canal para aquisições estratégicas de empresas inovadoras. O estudo da Spectra mostra novamente esse fenômeno: mais de um terço das saídas ocorreu por aquisição pela empresa controladora do fundo.
Quando uma corporação compra uma startup do portfólio ainda cedo, a taxa de retorno do fundo pode permanecer limitada, pois o potencial de valorização futura deixa de aparecer ali. No entanto, se a tecnologia adquirida reduz custos operacionais em milhões ou cria uma nova linha de receitas, o ganho aparece no balanço da empresa — não no relatório de desempenho do fundo.
O caminho à frente
Os números apresentados pela Spectra são úteis como alerta. Eles ajudam empresas a sair da euforia da inovação que marcou 2021 e a trazer mais disciplina para suas operações de investimento em startups.
Ainda assim, declarar o modelo de venture corporativo fracassado com base nesses dados iniciais é precipitado. Esse tipo de investimento é, por natureza, uma estratégia de longo prazo. Disciplina financeira é essencial para sustentar esses programas, mas o sucesso precisa ser avaliado com os parâmetros corretos.
Isso significa:
permitir que os portfólios atravessem o período inicial da curva em J;
aceitar as altas taxas de perda inerentes ao investimento em inovação;
e reconhecer que os maiores ganhos financeiros frequentemente aparecem no balanço da empresa controladora, e não apenas no retorno registrado pelo fundo.
Ricardo Kahn
Diretor de Consultoria e Inovação da Valetec Capital, empresa brasileira de investimentos especializada em venture corporativo e inovação aberta.
Publicado originalmente em:
Sobre o autor
Corporate Venture Capital, Innovation Strategy | Director, Consulting and Innovation @ Valetec Capital
