
CVC no Brasil: O Problema Não é o Modelo. É a Expectativa.
Nos últimos anos, o Corporate Venture Capital assumiu protagonismo no Brasil. Entre 2021 e 2022, observamos uma verdadeira corrida corporativa em direção às startups, impulsionada por liquidez abundante, valuations elevados e pela urgência de capturar inovação de forma acelerada. Com a desaceleração do mercado, no entanto, os números passaram a refletir maior cautela. Relatório recente da Spectra Investimentos aponta um cenário mais comedido para os programas de CVC, com redução no ritmo de novos aportes e maior seletividade. A leitura superficial parece imediata: o CVC não funciona. Eu penso diferente.
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O problema não está no modelo. Está na expectativa criada em torno dele, muitas vezes desalinhada com o horizonte de maturação desse tipo de iniciativa, e, principalmente, na forma como esses veículos foram estruturados dentro das corporações.
Em muitos casos, faltaram governança adequada, clareza estratégica, definição de tese, métricas de sucesso coerentes e, sobretudo, alinhamento entre inovação e core business. O que falhou não foi o instrumento, mas a disciplina na sua execução.
A comparação errada
Muitos analisam CVC como se ele fosse apenas um fundo de venture capital tradicional. Mas essa não é a sua natureza.
CVC nasce, na maioria das vezes, para resolver um desafio corporativo. Ele existe para acelerar inovação, reduzir risco de obsolescência, criar opcionalidade estratégica e antecipar movimentos de mercado.
Quando se mede exclusivamente retorno financeiro de curto prazo, ignora-se parte relevante do valor gerado. O próprio estudo mostra que diversas startups investidas foram posteriormente adquiridas pelas patrocinadoras. Isso não é fracasso financeiro. É estratégia corporativa em ação.
O ciclo também importa
É importante lembrar que muitos investimentos foram realizados no pico de 2021 e 2022, período de valuations elevados e excesso de liquidez. A correção que veio depois impactou marcações e distorceu indicadores de retorno.
Venture capital é uma classe de ativos de ciclo longo. Avaliar resultados em um horizonte tão curto pode levar a conclusões precipitadas.
O que realmente fragiliza o modelo
O ponto mais sensível, na minha visão, é a institucionalização.
Muitos programas nasceram por efeito de tendência. Criaram-se estruturas sem tese clara, sem governança independente, sem métricas estratégicas bem definidas e, principalmente, sem compromisso de longo prazo.
Quando o cenário macroeconômico mudou e a pressão por eficiência aumentou, o CVC passou a ser visto como algo opcional.
Isso não revela falha do modelo. Revela falta de convicção estratégica.
Edição anual 2025 do relatório Ecossistema de Inovação Aberta e CVC no Brasil
Já está no ar a edição anual 2025 do relatório Ecossistema de Inovação Aberta e CVC no Brasil, produzido pela Sling Hub e com apoio da ABCVC. O consolidado de 2025 registra US$ 4,5B investidos em startups brasileiras, em 459 rodadas. Dentro desse total, rodadas com participação corporativa somaram US$ 2,06B (46%), concentradas em 48 rodadas (10%) — sinal de alocação corporativa em menos operações e de maior ticket. Na comparação com 2024, a retração foi mais forte na atividade do que no volume: -22% em rodadas e -13% em volume, com 367 investidores em 2025.
Investir fora do core é necessariamente um erro?
Parte relevante dos investimentos ocorreu fora da atividade principal das empresas. Há quem enxergue isso como dispersão.
Mas também é possível interpretar como busca por reinvenção.
Transformações estruturais raramente nascem protegendo o core atual. Elas surgem quando a empresa decide explorar adjacências e construir o próximo ciclo de crescimento.
Se a intenção é apenas eficiência incremental, talvez não seja necessário um CVC. Mas se o objetivo é evolução estratégica, ampliar fronteiras faz sentido.
A questão central
A discussão não deveria ser se CVC funciona ou não.
A pergunta mais honesta é: para qual objetivo ele foi criado?
Se a expectativa era retorno financeiro puro no curto prazo, os resultados recentes realmente frustram.
Se o propósito era criar acesso a tecnologia, inteligência de mercado e opcionalidade de aquisição, os sinais são mais complexos e menos negativos do que parecem.
CVC não é modismo nem solução mágica. É instrumento estratégico. Como todo instrumento, depende de clareza de tese, disciplina de execução e paciência de capital.
Talvez o momento atual não seja de abandonar o modelo, mas de amadurecê-lo.
E isso exige menos euforia e mais convicção.
Sobre o autor
Leo Monte é Presidente da ABCVC
